«A guerra europeia, que foi preparada no decurso de decénios pelos governos e pelos partidos burgueses de todos os países, rebentou. O aumento dos armamentos, a extrema agudização da luta pelos mercados na época do estádio actual, imperialista, de desenvolvimento do capitalismo nos países avançados e os interesses dinásticos das monarquias mais atrasadas, as da Europa Oriental, deviam conduzir inevitavelmente, e conduziram, a esta guerra. Conquistar terras e subjugar nações estrangeiras, arruinar a nação concorrente, saquear as suas riquezas, desviar a atenção das massas trabalhadoras das crises políticas internas da Rússia, Alemanha, Inglaterra e de outros países, a desunião e o entontecimento nacionalista dos operários e o extermínio da sua vanguarda com o objectivo de debilitar o movimento revolucionário do proletariado — tal é o único real conteúdo, significado e sentido da actual guerra.»
V. I. Lénine (Setembro/1914)
O Governo e o Ministério da Defesa Nacional, a propósito do centenário da I Guerra Mundial, estão a promover um conjunto de cerimónias com o objectivo de relembrar o sacrifício dos nossos antepassados e o enquadramento político em que o nosso País participou no conflito. Mas assinalar os 100 anos da Guerra 14-18 não pode ser apenas o assinalar de uma efeméride, apelando ao sentimentalismo e ao patriotismo oco.
É preciso relembrar que se a I Guerra Mundial foi, sem dúvida, uma das grandes tragédias da humanidade, ela foi também o resultado de uma intensa disputa entre as potências europeias ocidentais, com as suas classes dominantes a degladiarem-se pelo domínio dos recursos, dos continentes e dos povos, provocando milhões de vítimas.
É preciso relembrar que, 100 anos passados e agora sob a capa da globalização, a Humanidade está confrontada com grandes perigos, fruto das posições do imperialismo cujos interesses e ambições ilimitados, espezinhando o direito internacional e sustentados numa agressiva acção militar e numa intensa corrida aos armamentos, visam assegurar o acesso a recursos e matérias primas. E se o desencadear da I Guerra Mundial foi também o início de um caminho que conduziu à Revolução Socialista de Outubro, um primeiro rasgo para a libertação do homem e da Humanidade, hoje estamos perante um importante retrocesso civilizacional nos direitos dos trabalhadores e dos povos, como aquele a que assistimos no nosso País.
Estamos perante uma intensa e violenta ofensiva militarista. Mas esta é apenas uma das faces dos perigos que temos de enfrentar. Paralelamente, intensifica-se a imposição de um brutal retrocesso civilizacional no plano dos direitos sociais, laborais e democráticos dos trabalhadores e dos povos, e desenvolve-se uma avassaladora ofensiva ideológica que visa manipular e domesticar as opiniões públicas.
A ofensiva do imperialismo, hoje sob a batuta dos EUA e da NATO, continua a promover focos de tensão a nível mundial, nomeadamente no Médio Oriente, procurando travar e esmagar forças e povos que protagonizam processos progressistas e afirmações de soberania, no quadro de uma ampla luta anti-imperialista.
É neste quadro, e no âmbito de uma estratégia do reforço da submissão do nosso País face à União Europeia e à NATO, que importa também sublinhar as tentativas de criar novos laços de envolvimento e dependência das nossas Forças Armadas no sentido de as obrigar a partilhar meios e missões de soberania, procurando transformá-las numa força residual e preparando-as sobretudo para missões internacionais no âmbito de forças multinacionais, não numa situação de igualdade ou reciprocidade de vantagens e defesa dos interesses nacionais, mas sim submetendo-as aos objectivos estratégicos das grandes potências. Isto, a par de um sistemática tentativa de envolver as Forças Armadas em missões de segurança interna e de um longo processo de desmantelamento da instituição militar, tal como constitucionalmente a conhecemos, com limitação de meios financeiros, humanos e a degradação da Condição Militar, enquanto ao nível do equipamento e da operacionalidade se verifica um desfasamento entre as necessidades nacionais e os meios adequados existentes. Cada vez mais o reequipamento militar tem como objectivo a participação em missões internacionais e as alterações na estrutura superior das Forças Armadas visam, prioritariamente, uniformizar modelos de gestão ao nível internacional e da NATO, não tendo em conta a história, a cultura e a tradição nacionais e das nossas Forças Armadas.
Portugal precisa de uma estratégia nacional e patriótica, alicerçada num pensamento estratégico próprio, sustentado nos valores e princípios constitucionais, contrariando a submissão aos interesses de outros.
O Mundo vive uma situação de conflito. Mas em 2014 como há 100 anos, a luta pela paz é uma das batalhas centrais contra as grandes potências imperialistas que procuram suster o seu declínio económico através de uma intensa ofensiva ideológica e militar com o objectivo de submeter os povos e manter o seu domínio sobre recursos, matérias-primas e posições geoestratégicas.